“Hoje eu tive uma crise de choro no serviço. Daquelas crises preocupantes onde você começa e não sabe se tem previsão de conseguir parar. Daquelas crises em que você tenta impedir olhando para o alto, respirando fundo para não desabar, mas não consegue. Eu chorei e só queria sair correndo para qualquer outro lugar onde não estivesse tão exposta sentimentalmente. Perdi o controle completo sobre todos os sentimentos que fico reprimindo. Perdi a compostura, o rebolado e toda minha fé de que as coisas melhorem.”
"—Você gosta de estrelas?
— Gosto. Você também?
— Também. Você está olhando a lua?
— Quase cheia, em Aries.
— Hoje Marte faz oposição com a Terra.
— Com a lua é daqui a seis dias. Chamam de lua vermelha.
— Isso é bom?
— Eu não sei. Deve ser.
— É sim. Bom encontrar você.
— Também acho.
(silêncio)
— Você gosta de Marte?
— Gosto. Na verdade “desejaria viver em Marte onde as almas são puras e a transa é outra” .
— Que é isso?
— Um poema de um menino que vai morrer.
— Como é que você sabe?
— Em fevereiro, ele vai desistir em fevereiro.
— Hein? (silêncio)
— Você tem um cigarro?
— Estou tentando parar de fumar.
— Eu também. Mas queria um coisa nas mãos agora.
— Você tem alguma coisa nas mãos agora.
— Eu?
— Eu. ( silêncio)
— Como é que você sabe?
— O quê?
— Que o menino vai desistir.
— Sei muitas coisas. Algumas nem aconteceram ainda. Por isso minha família me caça.
— Eu não sei nada.
— Te ensino a saber, não a sentir. Não sinto nada, já faz tempo.
— Eu só sinto, mas não sei o que sinto. Quando sei, não consigo entender. Ninguém entende.
— As vezes sim. Eu te ensino.
— Difícil, morri em dezembro, no meu primeiro casamento.
— Também. Na primeira lua cheia. Depois sai do corpo. Você já saiu do corpo? (silêncio)
— Você tomou alguma coisa?
— O quê?
— Cocaína, morfina, candeína, mescalina, heroína, estamina, psilocibina, metedrina. Juízo?
— Não tomei nada. Não tomo mais nada.
— Nem eu. Já tomei tudo.
— Tudo?
— Aconito tem parte com o diabo.
— O diferente aperfeiçoa o real.
— Agora quero ficar limpa, de corpo e alma, cuidar dos filhos. Não quero sair do corpo. (silêncio
— Acho que estou voltando. Usava vestidos justos e camisetas do mickey.
— Meus cabelos eram loiros pervertidos, e eu tenho uma tatuagem.
— Alguma coisa se perdeu.
— Também acho. Aonde fomos? Aonde ficamos?
— Alguma coisa se encontrou.
— E aqueles planos?
— E aquelas zumbas?
— O sol já foi embora.
— A estrada escureceu. Mas navegamos.
— Sim. Aonde está o norte?
— Localiza o Cruzeiro do Sul. Depois caminha na direção oposta.
— Você é de Aries?
— Sou. E você, de Sagitário?
— Sou. Eu sabia.
— Eu sabia também.
— Combinamos: Lua.
— Sim. Combinamos. Marte."
Ciceero M. A noite em que Marte encontrou a Lua. (via principar)
“vamos pelas escadas” você sussurrava em meu ouvido, o elevador iria demorar, disse em seguida.
as escadas de emergência estavam vazia como o deserto, ninguém as usava. descíamos correndo, às vezes parávamos, respirávamos, sorriamos, dávamos uns amasso, seguíamos.
paramos de correr para não cairmos, éramos um mais atrapalhado que o outro, uma hora ou outra rolaríamos escada abaixo.
- por que estamos descendo pelas escadas? perguntei parando para questionar essa diversão repentina.
você disse:
- ah porque achei que seria lindo egal, o elevador iria demorar também, e pelo mais óbvio.
Estou passando mal, e não é somente vontade de vomitar. É vontade de gritar aquilo que está entalado. Vontade de chorar até não haver mais lágrimas. Vontade de esconder-me em algum lugar e ficar lá durante 80 anos até tudo passar. Vontade de tudo, menos de estar onde estou.
"Perdeu-se o mundo. E no fundo da minha alma — como única realidade deste momento — há uma mágoa intensa e invisível, uma tristeza como o som de quem chora num quarto escuro."
Fernando Pessoa, Livro do Desassossego (Fragmentos 196). (via enunciavel)